quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Rúcula-gate e a paz pela comida

por Sérgio Dávila, de Washington
Revista da Folha, Setembro de 2008

“Comer é um ato político, como experimentou na carne (perdão pelo primeiro trocadilho) o bispo Sardinha, ao ser devorado pelos índios caetés, em 16 de junho de 1556. No ano passado, em pleno começo de campanha pela indicação do Partido Democrata, Barack Obama perguntou numa feira no Iowa: ''Alguém foi recentemente ao Whole Foods e viu o preço que eles cobram pela rúcula''?
A frase foi dita num dos Estados-símbolos do chamado "cinturão do milho" norte-americano. O candidato sugeria que os agricultores locais diversificassem a monocultura e investissem em plantas pelas quais poderiam cobrar mais. Desde então, a afirmação tem sido usada por diferentes oponentes para demonstrar como o democrata é elitista e não está em contato com a realidade do povo.
"Tive que procurar no Google o que era rúcula!", bradou há poucos dias Jed Babbin, subsecretário de Defesa de Bush pai (1989-1993), hoje presidente do grupo ultra conservador Human Events. Você é o que você come, defendem John McCain e seus asseclas republicanos, e Obama é o homem errado, porque come os produtos errados, no lugar errado - o Whole Foods é de classe média alta.
Rúcula? O americano de raiz (perdão pelo segundo trocadilho) come alface, e olhe lá. De preferência acompanhada de hambúrguer de bisão ou alce. Cru. Obama não é a primeira vítima do que ficou conhecido como "rúcula-gate". Antes dele, Michael Dukakis também foi acusado de elitismo vegetal. Em 1987, no mesmo Iowa, o então candidato democrata sugeriu que (provavelmente) os mesmos agricultores diversificassem sua produção plantando endívias. Perdeu de lavada para Bush pai.
A diferença entre 1987 e 2008 é que os conscientes alimentares deixaram de ser uma minoria. Se há duas décadas ser vegetariano era tão exóticos nesse país quanto ser negro e concorrer à presidência, agora a preocupação com a comida é tão bem-vista quanto a ambiental, até porque ambas andam de mãos dadas. Nos supermercados, cresce o número de produtos anunciados como "locais" e que gastaram pouco combustível fóssil para chegar à mesa do consumidor, chamado "localvoro".
As editoras pegam carona no debate político-gastronômico. Quatro anos depois de "How to Eat Like a Republican" ("Como comer como um Republicano”, Villard), é a vez de "Cuisines of the Axis of Evil and Other Irritating States - A Dinner Party Approach to International Relations" ("Culinárias do Eixo do Mal e Outros Estados Irritantes - Um Olhar nas Relações Internacionais pela Mesa do Jantar", Lyons Press).
Se a obra de 2004 vinha na esteira da segunda vitória de Bush filho e no que Karl Rove sonhava ser o começo da maioria permanente republicana, a de agora pega emprestada a expressão pela qual o presidente reuniu Irã, Iraque e Coréia do Norte no mesmo pacote, o de países que, em 2002, ele acusava de patrocinarem o terrorismo, para examinar o que a autora chama de culinária política.
Um prato nacional diz muito sobre a política externa de um país, defende Chris Fair. O de Israel, por exemplo, é o falafel, o bolinho frito de grão de bico, "uma maneira de eles dizerem 'Nós temos participação num prato tipicamente árabe'". Ela viajou para ou pesquisou sobre dez países que não mantêm exatamente boas relações com os EUA, entre eles Cuba e Mianmar.
Chegou à conclusão de que o entendimento mundial passa pela cozinha. Com rúcula ou não.”


Uma coisa que aprendi lendo o Dilema do Onívoro é que quase ABSOLUTAMENTE tudo vem do milho... É o milho que alimenta o novilho que se transforma em bife. O milho alimenta a galinha e o porco, o peru e o cordeiro, o bagre e a tilápia e, cada vez mais, até o salmão, um carnívoro por natureza que os criadores de peixe estão submetendo a uma reengenharia para que passe a tolerar a ração de milho. Os ovos são feitos de milho. O leite e o queijo e o iogurte que tomamos, que antes vinham das vacas leiteiras que se alimentavam de pasto, agora costumam vir das vacas que passam toda sua vida útil num estábulo, ligadas à máquinas, comendo MILHO.
Mas o que acontece com os 45 quilos extras de nitrogênio sintético que os pés de milho do Iowa não consomem? Parte dele evapora no ar, onde acidifica a chuva e contribui para o aquecimento global. (o nitrato de amônia é transformado em óxido nitroso, ou seja, gás-estufa) Outra parte se infiltra no lençol freático. Por que não aproveitar a entressafra e plantar rúcula e vender a preço de ouro para a classe média alta que freqüenta o Whole Foods?
Se somos o que comemos e Barack Obama come errado, o que sobra pra nós? O que nos tornaríamos se também achássemos um absurdo plantar rúcula à milho? Seríamos então apenas carne, milho e petróleo.
Alguns anos atrás eu me arrependia amargamente de ter ingressado no curso de engenharia de alimentos, mas a cada dia que passa, a cada reportagem que leio, a cada pessoa um pouco mais conservadora que converso percebo que fiz a escolha certa. Precisamos de engenheiros de alimentação para nos alimentar....
Chegamos ao ponto de precisar de jornalistas investigativos para nos dizer de onde vem a nossa comida, e de nutricionistas para determinar o cardápio do nosso jantar e crucificarmos um canditado à presidência por conhecer, comer e gostar de rúcula!

5 comentários:

Odete disse...

Otimo post. Obama eh meu candidato e nem sabia que ele come rucula,coincidentemente, gosto muito. Tenho que comprar na Whole Food, nao porque gosto de pagar mais caro, mas pela qualidade dos produtos que vendem.

Abcs

Guilherme Lombardi disse...

Obama é meu candidato. (2)
Tbm gosto de rúcula, acho um absurdo uma pizza de rúcula custar mais que uma 4, 5 ou 8 queijos. Muito bom o post, interligar política, agronegócio e meio ambiente parece óbvio mas vc conseguiu fazer fugindo do mesmismo. Vejo que vc está realmente aproveitando seu curso.

bj

Anônimo disse...

Um viva pro seus tios que são agrônomos e trampam com milho tb.
Quanto ao uso de N2 causar efeito estufa e contaminar lençol freático, bom, existe bastante terrorismo ecológico. Um dia te explico.
Outra coisa, um dia vc vai ter que escrever um post na minha frente, não acredito que vc escreve tão bem.
Tio Nando

Marina Sabino disse...

Obrigada pela credibilidade e pelo NÃO ELOGIO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Mobral!

Maria Teresa disse...

Esqueceu de dizer que comemos rúcula todos os dias aqui, em casa. Deve ser por isto que somos tão bonitas.... inteligentes e outras cositas mais, tipo gostos...
hehehehe
Seu tio não deve comer muita rúcula...